Ser profissional de natação x Ser profissional através da natação

Boas…

Melhor esperar pra cair na H2O, e melhor ainda sentar pois este assunto pode ser longo.

Durante minha carreira de Atleta, recebi alguns benefícios pelos resultados que obtive. Sempre fui um Atleta bem mediano, e por esse motivo adorava treinar como um louco. Sentir dor, câimbras, colocar “tudo” pra fora durante as series era pra mim a maior vitoria.

Conseguir aumentar o meu suporte a dor e sofrimento me faziam comemorar muito. Bem mas vamos aos benefícios.

Passe de ônibus, bolsa de estudo, alimentação, moradia em republica e as viagens para competir foram os meus maiores incentivos durante o período em que nadei.
Meus Pais sempre me apoiaram, e naturalmente percebi que tudo aquilo teria um propósito no futuro: Utilizar a Natação para me tornar um grande Profissional.

Aos 25 anos estava formado em Educação Física já trabalhava e ainda nadava; um ano depois encerrei de vez a minha fase de Atleta e passei somente a me dedicar a profissão.

Alguns dos meus Amigos recebiam uma ajuda um pouco maior, mas realmente não me lembro de ninguém largando os estudos para dedicar-se apenas a Natação … Ninguém era “PROFISSIONAL”, todos nós éramos grandes amadores e muito felizes por isso.

Vamos nomear essa fase como AGB (Antes do Gustavo Borges): se ganhava algum incentivo mas ninguém vivia do esporte … Depois veio a fase DGB (Depois do Gustavo Borges).

A modalidade começou a ganhar visibilidade e as verbas de patrocínio aumentaram significativamente. Nesta fase muitos ganharam dinheiro; alguns um bom dinheiro, e outros realmente muito dinheiro. O auge foi no inicio de 2.000 com dois “projetos” envolvendo clubes de futebol no Rio de Janeiro. Estes times viajavam para campeonatos com mais de 150 Atletas, e entre 25 a 30 Treinadores e Staff. Algo insano que teve uma duração curtíssima (aproximadamente 3 anos). Ao final disso, muitas ações trabalhistas, muitos Treinadores desempregados e Atletas completamente fora da realidade acreditando que valiam realmente o que estavam recebendo durante o projeto.

Foi tanta a loucura, que Atletas das categorias Infantil (13 e 14 anos) e Juvenil (15 e 16 anos) acabavam sendo levados para os dois times pelo simples fato de poderem marcar algum ponto durante as competições e “soltos no mercado” seriam ameaça de pontos para o “rival”.

Passada esta fase, de uns tempos pra cá alguma coisa mudou e hoje temos um “seletíssimo” grupo de Atletas ganhando mais de 15 mil reais mensais, outros tantos entre 10 e 15 mil e na ponta do iceberg cerca de 1% com salários acima de 20 mil mensais.

De forma alguma estou dizendo que não mereçam, mas quero deixar registrado que muitos destes se quer estão cursando uma faculdade e este é e sempre foi o meu maior questionamento. Campeonatos Mundiais, Jogos Panamericanos, Olimpíadas realmente são e serão para poucos, além do tempo produtivo que dependendo do Atleta pode ser maior ou menor.

Um exemplo de longevidade, é o Nicholas Santos (38 anos) que algumas semanas atras bateu o record mundial dos 50m Borboleta com o tempo de 21″75.

Formado em fisioterapia e ainda apresentando resultados incontestáveis dentro da água; porem existem muitos outros que literalmente se perderam durante este longo processo.

Poderia aqui citar pelo menos 10 casos reais de “promessas” que se perderam no meio do caminho e infelizmente estão a deriva como seres humanos… Fico extremamente triste e continuo a me perguntar:
“-Ser PROFISSIONAL da Natação, ou me tornar um Profissional ATRAVÉS da Natação?!?!?!”

Adoramos nos comparar com os filhos do “Tio Sam”, e por lá o buraco é bem mais embaixo.

Estudar é uma obrigação praticamente imposta pelo sistema. Cursar uma boa universidade custa muito caro e as bolsas de estudo acabam sendo a melhor opção para os jovens.
Estudar com custo zero ou pagando quantias irrisórias tem o seu “custo”. Ao perder notas na parte acadêmica, um Atleta fica impedido de competir pela instituição até se recuperar, e caso seja reincidente o resultado é “bye bye scholarship”… Todas as suas regalias vão para o “ralo” e a sua família terá que começar a pagar pelos seus estudos, fora a “vergonha” de passar por esta situação.

Nadadores Profissionais nos EUA, não podem competir pelas Universidades e também tem que pagar pelos estudos. Estes Profissionais também são um número bem pequeno pois a maioria quer ter o seu diploma na mão pra depois de “pendurar os oclinhos” poder cair no mercado de trabalho que admira e oferece muito mais oportunidade aos que apresentam em seu currículo a pratica esportiva durante a vida escolar.

Na ultima Olimpíada tivemos a nadadora Maya Dirado que se graduou em Stanford. Logo após os Jogos Olímpicos do Rio, aposentou-se, casou-se e seguiu a vida com um excelente emprego.

Voltando para a nossa realidade, infelizmente por aqui Estudo e Esporte tem apenas a vogal E do inicio em comum…
Dois dos maiores alicerces de uma sociedade teimam em caminhar como inimigos mortais.

Depois desta, acredito que a resposta esta mais que dada … Pratique esporte e “rale” para conciliar os 2 importantes “ês” durante a sua vida, pois no final das contas a ponta do iceberg corresponde a menos de 10%.

Um forte e molhado abraço,
Indiani

Alexandre Indiani
#ENCONTRO NACIONAL de TÉCNICOS
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